Sem TV, sem poder ler jornal, sem ter com quem falar, só tive uma coisa para fazer: pensar. Sabe que é bom? |
domingo, 15 de novembro de 2009
Que semana
domingo, 8 de novembro de 2009
Para não esquecer
Nenhum brasileiro gosta de ser chamado, pelo presidente, de "eles", como se tivesse nascido em terra inimiga |
domingo, 1 de novembro de 2009
Poder compartilhar
Se a alegria era tão grande, por que ela não me bastava, por que precisava contar? Não posso ser feliz sozinha? |
Outro dia, às 2h da tarde, tive uma boa notícia e corri para o telefone. Na primeira chamada, atendeu a secretária eletrônica, mas nem deixei recado. Na segunda, o celular estava fora de área, na terceira, ouvi um "não está dando para falar agora, te ligo mais tarde"; a partir daí, nem lembro mais. Só poderia contar minha alegria a alguém muito íntimo, e tive aí o primeiro susto: quantos amigos íntimos eu tenho? Poucos, muito menos do que eu imaginava.
Será que Roberto Carlos conseguiu ter 1 milhão de amigos? Se eu tenho tão poucos, a culpa deve ser minha, claro, que não procuro ninguém, e quando me convidam para alguma coisa, com raras exceções, arranjo uma desculpa e digo que não posso ir. Aí fico pensando: preciso mudar. Vou começar abrindo minha agenda e ligando para pessoas que não vejo há séculos para dar um alô, dizer que estou com saudades, perguntar pela vida e terminar a conversa com o inevitável "vamos combinar de almoçar, te ligo". E aí, vou ligar? Já sei que não, e se a pessoa me ligar, talvez diga que estou cheia de trabalho, na segunda-feira vou viajar, que telefono quando voltar. Difícil ser difícil, e difícil deixar de ser.
Com tudo isso até me esqueci do principal: continuei sem ter ninguém com quem compartilhar minha alegria. E é curioso: se minha alegria era tão grande, por que ela não me bastava, por que a necessidade de contar para o mundo? Será que não posso ser feliz sozinha? Por que será que quando se trata de boas coisas preciso que o universo saiba, e quando estou triste prefiro ficar muda, sozinha? Fiquei pensando em tudo isso, mas continuei sem ter com quem falar sobre minha alegria, que àquelas alturas nem era mais tão grande assim.
O dia foi passando e eu esperando que meus poucos amigos íntimos chegassem em casa para poder contar. Às 7h recomecei a telefonar, e mesmo sem todo aquele entusiasmo, fui logo contando o "acontecido".
A reação foi morna. "Ah, mas que ótimo, parabéns, você deve estar feliz". Mais uma ou duas frases sobre o assunto, e a conversa passou a ser a de sempre: a violência do Rio, o quanto vão roubar com as obras da Olimpíada, a próxima eleição, a dieta que não se consegue fazer, a ginástica que vai mal, e daí a pouco a conversa acabou, com um "vamos ver se a gente almoça no fim de semana", e ponto.
Um pouco mais, um pouco menos, foi igual com todos os meus poucos amigos íntimos, e minha alegria, que tinha sido tão grande, murchou. Eu é que sou louca, pensei, afinal não havia motivo para tanta euforia.
Ou será que havia? E lembrei de meu pai e de minha mãe; os pais são as únicas pessoas que têm todo o tempo do mundo para nos ouvir e são solidárias não só nas nossas tristezas como também nas nossas felicidades.
Estou sendo injusta, nossos analistas também nos ouvem; mas às vezes a gente precisa mais do que de quem nos ouça. Precisa que nos ouçam com afeto.
danuza.leao@uol.com.br
domingo, 25 de outubro de 2009
O pior inimigo é o falso amigo
Volta e meia faz comentário sobre você, maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar |
Ele é capaz de falar mal de você em público sem ter, em momento algum, medo de que repitam o que ele disse. E também pode te dar um tiro ou uma facada, mas sem nunca te enganar -sempre numa boa.
Se for seu caso, não faça nenhum tipo de concessão. Cometa um assassinato, internamente, e esqueça de que ele existe -mas esqueça mesmo. Mas atenção: é importante que ele saiba que você sabe perfeitamente quem ele é.
E valorize seus inimigos, os bons. Eles estão sempre dispostos a liquidar com você, mas sempre com a maior lealdade.
danuza.leao@uol.com.br
sábado, 17 de outubro de 2009
Só às vezes
Difícil a tal coerência, quando se trata de nosso sono, da nossa vida. Mas é preciso pensar no bem do país |
A GENTE LUTA pelas conquistas sociais, pensa no bem geral, na justiça entre os homens -mas até que ponto? Até onde esses ideais não interferem em nossos interesses pessoais, claro.
Mesmo que você não seja uma Madre Teresa de Calcutá, deixar a bondade vencer a maldade que temos juntinhas, no mesmo coração, faz bem. Tente, pelo menos às vezes.
danuza.leao@uol.com.br
domingo, 11 de outubro de 2009
Sempre
Esse namoro, ou charme, ou flerte, não tem nada a ver com beleza, idade, posição social. É só pelo prazer |
NAMORAR é preciso -com todo mundo, o tempo todo. Esse namoro de que estou falando não tem nenhuma conotação sexual -não necessariamente; é uma coisa leve, de um charme suave, que deveria existir entre todas as pessoas, em todos os momentos do dia, o que faria da vida algo de bem interessante. Namorai-vos uns aos outros deveria ser um lema: o amai-vos a gente deixa para depois, até porque é mais complicado.
Quando sentar num café e pedir uma caipirinha, no lugar de pedir com a cara amarrada, por que não começa já com um sorriso perguntando "será que vocês têm aqueles cajus maravilhosos para eu tomar a melhor caipirinha da cidade?" Se fizer isso, não tenha dúvidas de que vai receber uma resposta à altura -e também um sorriso- e a caipirinha vai ficar melhor ainda.
Uma amiga me contou que um dia, no aeroporto de Roma, pediu uma água mineral e quando perguntou quanto era, o garçom respondeu, olhando para ela bem dentro dos olhos: "Para você, 400 liras". Tudo bem, ela tinha marido, filhos, estava embarcando de volta para casa e não tinha a mais leve intenção de jogar tudo para o alto e viver um romance de amor, mas que gostou, ah, isso gostou.
A feira é um lugar onde esse charme existe o tempo todo. "Freguesinha bonita, prove um pedacinho do abacaxi, doce como mel, não existe nenhum igual ao meu." Não dá para resistir e você, que mora sozinha, compra logo seis, sem nem saber por quê.
Esse namoro, ou charme, ou flerte, não tem nada a ver com beleza, idade, posição social. É só pelo prazer, e pobres dos que são imunes a isso, não sabem o que perdem. Namora-se crianças de berço, gatos, cachorros, o macaco do jardim zoológico, e quando se começa, sempre há um retorno: faça a experiência e depois me diga.
Namorar não só ajuda a conseguir a informação de que se precisa com mais facilidade como a conversa vira um grande prazer. Reservar passagem na véspera de um feriado prolongado é praticamente impossível, mas quando você recebe um não daqueles definitivos, pergunte ao funcionário como ele se chama e diga "Paulo, meu namorado está me esperando e você, que deve ter uma namorada, sabe que avião lotado não foi feito para gente apaixonada.
Pelo menos me ponha em lista de espera e jure que vai fazer o impossível para me colocar no voo". Dizendo isso com todo o charme do mundo, já conta com uma boa probabilidade de embarcar. Na pior das hipóteses, passou uns minutos bem agradáveis e ficou cheia de esperança -e isso não é bom?
Então, vamos começar, e já. Hoje é o primeiro dia de namorar todo mundo, começando pelo porteiro e chegando até ao flanelinha -é, até ao flanelinha. Se na hora de pegar o carro, cheia de sacolas, você, desesperada, nem cogita em tirar a bolsa e procurar aquele troco que, no fundo, não tem nenhuma obrigação de dar, abra um sorriso e diga "companheiro, estou sem trocado; não fique zangado, mas vai ficar para a próxima -desculpe, sim?" Garanto que ele vai dizer um "tudo bem, madame", bem legal, e até sorrir para você. E não é melhor a vida assim?
É uma maneira de viver que deve ser exercitada e que pode trazer resultados inesperados. Como as pessoas vão gostar mais de você, de repente dá até para reformular o que foi dito lá em cima, com ar de grande verdade: "Namorar, sempre, e sem nenhuma conotação sexual". Porque com essa conotação fica melhor ainda.
Isso se chama alegria de viver.
domingo, 4 de outubro de 2009
A dura vida de um turista
Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram |
UMA DAS COISAS mais difíceis deste mundo é ser turista. Existem pessoas que têm essa vocação; acordam cedo para aproveitar o dia e já saem do hotel com um livrinho onde está marcado tudo o que não podem deixar de ver, o restaurante onde devem almoçar e, em casos mais graves, o que devem comer. Enquanto os homens se interessam pela história e os costumes do país, as mulheres compram.
Seja lá o que for, elas compram, e se for para não comprar, preferem não viajar. Você daria a volta ao mundo, em primeiríssima classe, se não pudesse comprar nem um alfinete? Eu, não.
Quando o casal volta ao hotel -e os quartos geralmente são pequenos-, é aquele caos, e os maridos reclamam; aliás, não conheço nenhum que não diga "Essa tralha não vai caber na mala, e ainda por cima vou ter que pagar uma fortuna de excesso de bagagem por todas as bobagens que você comprou". Que mulher nunca ouviu esse texto?
O dia de um turista é duro: se é verão, chegam suados, mortos, e na Europa, a não ser em grandes hotéis, não existe ar-condicionado; e ainda vão ter que sair para jantar. Mas talvez no inverno seja pior: eles chegam exaustos, com dor na coluna por ter passado o dia com o peso do suéter, do casaco, do cachecol e das botas -fora os pacotes. Uma delícia chegar e tirar tudo, sobretudo as botas, mas daí a pouco vai ser preciso se vestir de novo, pois tem o jantar. Numa viagem clássica, visitando três ou quatro países, são umas 35 igrejas e uns 84 museus. E como dizer aos amigos que deixou de ir a algum?
Seria bom se os casais estivessem sempre de acordo, mas não é o que costuma acontecer, sobretudo em viagens. Na vida de todo dia, em casa, é tudo mais fácil. Ele chega, o jantar está pronto, as crianças ligam a televisão, se quiserem vão ao cinema, se não quiserem deixam para amanhã, e tem sempre um assunto do escritório, o último escândalo da política, uma fofoca doméstica, tem a novela, ela pode ter uma dor de cabeça, ele querer dormir cedo, e assim vai indo a vida.
Mas numa viagem, não. São só os dois, cara a cara, se enfrentando 24 horas por dia, tomando resoluções, cada um vendo o outro como ele realmente é -porque na lua-de-mel ninguém vê-, e avaliando se é feliz ou não, se ainda está valendo aquele casamento ou se já acabou.
Isso acontece em todos os momentos do dia, e quando a mulher se irrita porque o marido leva muito tempo tomando banho, e ele se exaspera porque ela não consegue se decidir pelo suéter rosa ou o marinho -e ainda pergunta a opinião dele-, é que as coisas não vão muito bem. Mas sejamos pacientes: também não vão tão mal assim, e uma viagem não é eterna.
No dia de ir embora, ela toma um tranquilizante e sai desatinada para comprar duas sacolas onde caibam as tais tralhas totalmente inúteis que comprou -e até lembra que da primeira vez em que foi à Bahia trouxe um berimbau, na mão-, e pensa que isso faz parte da viagem, de qualquer viagem.
Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram. Até aí tudo bem, só que tem a hora de mostrar as fotos; nessa hora, só alguém tendo um mal súbito.
danuza.leao@uol.com.br