domingo, 15 de novembro de 2009

Que semana




Sem TV, sem poder ler jornal, sem ter com quem falar, só tive uma coisa para fazer: pensar. Sabe que é bom?



A SEMANA foi agitada: houve a expulsão de Geisy por usar minissaia -minissaia, aliás, lançada por Mary Quant nos anos 60-, a "desexpulsão", depois o protesto de colegas da UnB que a apoiaram e que, nus, foram entregar uma carta ao reitor da universidade (e eu pagava para ver a cara do reitor).

Além disso, chegou Madonna, o que é sempre um acontecimento, não se sabe bem por que, e que passou duas horas no hotel Fasano com a mãe de Jesus, provavelmente pedindo sua mão em casamento. E para completar, tivemos o apagão. Como não estou em fase política, vou fingir que acreditei em tudo o que disse o grande especialista em energia Edison Lobão, indicado ministro por Sarney para que o PMDB apóie o PT, que assim terá mais tempo no horário político da TV, deu para entender? Na quinta à tarde, o ministro disse, com voz firme, que o assunto está encerrado; que maravilha. É claro que foram a chuva, os ventos e alguns raios os responsáveis pelo apagão, mesmo tendo chovido tão pouco em Itaberá; tão pouco que as luzes da cidade nem se apagaram, segundo o prefeito e os habitantes locais. Quanto a raios, nem unzinho. A culpa então foi de quem? Dos inimigos do PT e da imprensa, naturalmente.

A pergunta que mais se fez foi "onde você estava na hora do apagão?". Eu estava em casa, e como não costumo ter velas na gaveta, fiquei numa escuridão/solidão total, e morta de calor; foi uma das noites mais quentes do ano. Celulares, nada; tentei ligar do fixo, mas não conseguia ver os números, então abri a tampinha do celular e com aquela luzinha fraca digitei o número, mas qual: tudo mudo. E percebi o quanto somos dependentes de toda essa parafernália eletrônica. Da luz, em primeiro lugar, e de todo o resto, em segundo. Quem me salvou dessa noite de trevas foram meus dois gatinhos, que não saíram de perto de mim um só minuto. E sem televisão, sem poder ler um jornal, sem ter com quem falar, só tive uma coisa para fazer: pensar. Sabe que é bom?

Nunca se tem tempo para essa coisa fundamental: pensar. Pensei em tudo o que a gente acaba negligenciando, sobretudo nossos afetos. Mas como os sentimentos não sobrevivem sem uma certa atenção, um dia se começa a achar que o coração não consegue -e nunca mais vai conseguir- gostar ou ao menos sofrer por alguém. Mas o tempo passa, aquele amigo de quem se gostava tanto viaja, e um belo dia você sente saudades dele. Há quanto tempo isso não te acontecia? Ter saudades quer dizer que seu coração está vivo, e esse fato é mais merecedor de uma comemoração do que qualquer data querida.

Um amigo é uma coisa muito boa, e se ele for daqueles que não te patrulham, não te invejam, não te analisam nem discutem a relação, é bom demais. Um amigo que te aceita do jeito que você é, não faz perguntas indiscretas, te entende pelo olhar, e não é, jamais, invasivo. Um amigo que nunca pergunta "em que você está pensando?", que é leve, que tem o hábito saudável de não se aprofundar sobre nenhum assunto -só a pedidos.

Se estiver tomando um banho de mar, ele não vai contar o quanto o mar o influenciou para ser quem é, como são boas as coisas simples da vida: uma rede, um camarãozinho frito e uma cerveja gelada -e daí para o divã é um pulo. Um amigo leve apenas usufrui a vida, e quem tiver a sorte de tê-lo a seu lado vai ter momentos de grande felicidade. E se você se distrair e voltar a falar no apagão, ele te dá a solução: ter sempre, na mesa de cabeceira, uma caixa de remédio para dormir -tarja preta.

domingo, 8 de novembro de 2009

Para não esquecer





Nenhum brasileiro gosta de ser chamado, pelo presidente, de "eles", como se tivesse nascido em terra inimiga


EU JÁ FUI fã do presidente Lula.

A primeira e única vez que o vi de perto foi num encontro com a classe artística no Canecão, no Rio, isso antes do seu primeiro mandato; mesmo tendo achado que ele se comportava um pouco como Silvio Santos, andando no palco para lá e para cá com o microfone na mão, fiquei fascinada com o personagem.

Além de sua impressionante trajetória pessoal, Lula transpirava sinceridade e honestidade, além de enorme simpatia; e afinal, o PT era o PT, partido que ia levar a ética para o Planalto. Alguns amigos, poucos, me disseram que eu estava enganada, que esperasse para ver. Mas Lula encantou o país e foi eleito num clima de expectativa jamais visto, com a maior parte da população acreditando que tudo daria certo, enfim.

Sua posse, com Brasília vestida de verde e amarelo, foi uma apoteose, mas já naquela noite o novo governo, que comemorou a vitória no salão de um hotel, deixou uma impressão preocupante. Na porta do tal salão, a segurança dava medo, e não deixava ninguém chegar nem perto.

Alguns colegas da imprensa, que estavam lá para fazer seu trabalho, contar como tinha sido a festa, não conseguiram; Lula não deu o ar de sua graça nem para um alô de longe.
O clima ficou um pouco tipo linha-dura, sobretudo na comparação com Fernando Henrique, que foi o mais cordial dos presidentes.

Comecei a prestar mais atenção no noticiário político e vi que muitos dos que apoiaram Lula foram se afastando. Dava para desconfiar; por que seria? Depois vieram os escândalos, as antigas estrelas do PT sumiram e muitas são réus do mensalão.

Mas não vou falar de política, nem para elogiar os sucessos nem para cair de pau no governo. Vou falar de coisas aparentemente sem importância, e que não teriam mesmo nenhuma importância se não se tratasse de um presidente, e que incomodam, e não só a mim.

Logo no início, quando Lula e sua mulher, d. Marisa, recebiam para jantar, os homens levavam uma garrafa de bebida, as mulheres um pratinho de doces, economizando dinheiro do país, lembra? Oh, demagogia, teu nome é Lula, teu nome é PT. Ok, passemos. Claro que não vou falar da prosperidade de Lulinha, nem de d. Marisa, que nunca fez rigorosamente nada -pelo menos para se distrair- em sete anos de primeira-dama, a não ser se vestir de verde e amarelo nas ocasiões propícias. Além do chapéu de palha que o casal tem a mania de usar, como se fossem dois roceiros, Lula se deslumbrou com ele mesmo, mas não aprendeu que, como presidente, não pode dizer "o Obama me disse", ou "falei no telefone com o Sarkozy"; ficaria mais condizente com seu cargo dizer "o presidente Obama", ou "o presidente Sarkozy". O Itamaraty não podia ensinar essas coisas? E não acredito que jamais o presidente Obama ou o presidente Sarkozy dissessem um descalabro desses.

Mas o que me incomoda mesmo é quando Lula diz -e isso está se repetindo, ultimamente- que "eles" estão mordidos, "eles" estão com raiva -ou com seu sucesso, ou porque "eles" já sabem (é o que Lula acha) que vão perder a próxima eleição, ou sei lá o que, não importa; o que importa é o "eles". "Eles" quem? Presumo que sejam todos os que não são do PT, portanto inimigos.

Lembro o dia em que Lula, já eleito, se encontrou com Bush. Foi com a estrela do PT na lapela, quando deveria ter ostentado a bandeira do Brasil. É como agora: espera-se que um presidente seja a favor do país para o qual foi eleito, não só ao partido que o elegeu. Nenhum brasileiro gosta de ser chamado, pelo presidente do seu país, de "eles", como se tivesse nascido numa terra inimiga.

E para não dizerem que não gosto do PT, vou dar uma mãozinha na candidata de Lula: para ter boa votação, quanto menos Dilma Roussef aparecer na TV, mais votos ela terá. danuza.leao@uol.com.br

domingo, 1 de novembro de 2009

Poder compartilhar




Se a alegria era tão grande, por que ela não me bastava, por que precisava contar? Não posso ser feliz sozinha?



QUANDO ACONTECE uma coisa bem boa, qual é meu primeiro impulso? Contar para alguém; aliás, contar para vários alguéns, contar para o mundo. Eu pego o telefone e vou ligando, pela ordem de amizade, só que nem sempre o universo conspira a meu favor.

Outro dia, às 2h da tarde, tive uma boa notícia e corri para o telefone. Na primeira chamada, atendeu a secretária eletrônica, mas nem deixei recado. Na segunda, o celular estava fora de área, na terceira, ouvi um "não está dando para falar agora, te ligo mais tarde"; a partir daí, nem lembro mais. Só poderia contar minha alegria a alguém muito íntimo, e tive aí o primeiro susto: quantos amigos íntimos eu tenho? Poucos, muito menos do que eu imaginava.

Será que Roberto Carlos conseguiu ter 1 milhão de amigos? Se eu tenho tão poucos, a culpa deve ser minha, claro, que não procuro ninguém, e quando me convidam para alguma coisa, com raras exceções, arranjo uma desculpa e digo que não posso ir. Aí fico pensando: preciso mudar. Vou começar abrindo minha agenda e ligando para pessoas que não vejo há séculos para dar um alô, dizer que estou com saudades, perguntar pela vida e terminar a conversa com o inevitável "vamos combinar de almoçar, te ligo". E aí, vou ligar? Já sei que não, e se a pessoa me ligar, talvez diga que estou cheia de trabalho, na segunda-feira vou viajar, que telefono quando voltar. Difícil ser difícil, e difícil deixar de ser.

Com tudo isso até me esqueci do principal: continuei sem ter ninguém com quem compartilhar minha alegria. E é curioso: se minha alegria era tão grande, por que ela não me bastava, por que a necessidade de contar para o mundo? Será que não posso ser feliz sozinha? Por que será que quando se trata de boas coisas preciso que o universo saiba, e quando estou triste prefiro ficar muda, sozinha? Fiquei pensando em tudo isso, mas continuei sem ter com quem falar sobre minha alegria, que àquelas alturas nem era mais tão grande assim.

O dia foi passando e eu esperando que meus poucos amigos íntimos chegassem em casa para poder contar. Às 7h recomecei a telefonar, e mesmo sem todo aquele entusiasmo, fui logo contando o "acontecido".

A reação foi morna. "Ah, mas que ótimo, parabéns, você deve estar feliz". Mais uma ou duas frases sobre o assunto, e a conversa passou a ser a de sempre: a violência do Rio, o quanto vão roubar com as obras da Olimpíada, a próxima eleição, a dieta que não se consegue fazer, a ginástica que vai mal, e daí a pouco a conversa acabou, com um "vamos ver se a gente almoça no fim de semana", e ponto.

Um pouco mais, um pouco menos, foi igual com todos os meus poucos amigos íntimos, e minha alegria, que tinha sido tão grande, murchou. Eu é que sou louca, pensei, afinal não havia motivo para tanta euforia.

Ou será que havia? E lembrei de meu pai e de minha mãe; os pais são as únicas pessoas que têm todo o tempo do mundo para nos ouvir e são solidárias não só nas nossas tristezas como também nas nossas felicidades.

Estou sendo injusta, nossos analistas também nos ouvem; mas às vezes a gente precisa mais do que de quem nos ouça. Precisa que nos ouçam com afeto.

danuza.leao@uol.com.br

domingo, 25 de outubro de 2009

O pior inimigo é o falso amigo




Volta e meia faz comentário sobre você, maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar


J Á QUE É inevitável ter inimigos, a coisa melhor do mundo é ter um de verdade: que te odeie com lealdade e sinceridade -sem nenhum fingimento.
Ele é capaz de falar mal de você em público sem ter, em momento algum, medo de que repitam o que ele disse. E também pode te dar um tiro ou uma facada, mas sem nunca te enganar -sempre numa boa.
 
Não é, positivamente, do tipo que diz "vou te contar uma coisa, mas não repita, fica só entre nós". Dele você pode esperar sempre o pior: que impeça que aquele negócio que estava planejando havia anos se realize, que diga àquela gata que está povoando seus sonhos que você é um cafajeste, que o dinheiro que você esbanja vem do tráfico de drogas -ou coisas ainda piores. Sabendo do que ele é capaz, você pode sempre se defender -o que é mais fácil do que lidar com a hipocrisia.
 
Como guerra é guerra, nada que ele faça de ruim poderá surpreender -essa é a vantagem de ter um inimigo leal. Quando se encontram num restaurante, você já sabe que deve ficar alerta e se sentar de costas para a parede, como fazem os malandros.
 
Ele é capaz de seduzir sua filha menor, de contratar alguém para roubar seus documentos e de jurar sobre a Bíblia sagrada que viu você subornando um político. Tudo faz parte, e quanto mais coisas ele fizer contra você, mais você aprende a se defender; como se aprende com um inimigo assim -ah, como se aprende.
 
Perigosos mesmo são os pseudo-amigos, aqueles que te tratam bem e que volta e meia fazem um comentário sobre você -maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar-, afinal, é apenas uma brincadeira, será que você perdeu o humor? E aquele que passou anos construindo a imagem do bom caráter de carteirinha pode fazer você levar a vida inteira na dúvida, sem ter coragem de encarar a verdade: que se trata apenas de um crápula.
 
A tal da imagem ilude muita gente, que durante anos pensa que o personagem é defensor das boas causas, dos fracos e oprimidos, e sempre politicamente correto -faz parte do modelo, claro. Incapaz de encarar uma briga de frente, ele não consegue nem ter inimigos, pois, como ser humano, não passa de uma fraude -e de um covarde.
 
Está sempre atrás de alguma vantagem -alguma pequena vantagem- e frequentemente comete traições -pequenas traições que dificilmente poderão ser comprovadas. E se alguém ousar acusá-lo de alguma coisa, sempre haverá alguém para defendê-lo -afinal, de uma pessoa com um passado tão correto, só um louco ousaria dizer alguma coisa.
 
Suas maldades e falhas de caráter nunca são grandiosas, porque nada nele é grandioso. Suas maldades são pequenas, porque tudo o que ele faz é pequeno; pequeno como sua pessoa, como sua alma. Mas, às vezes, se tem que conviver com gente assim -como fazer?
Se for seu caso, não faça nenhum tipo de concessão. Cometa um assassinato, internamente, e esqueça de que ele existe -mas esqueça mesmo. Mas atenção: é importante que ele saiba que você sabe perfeitamente quem ele é.
 
Fique cego quando passar por ele, e se alguém mencionar seu nome, não ouça; esqueça das mesquinharias de que é capaz um pobre ser humano.

E valorize seus inimigos, os bons. Eles estão sempre dispostos a liquidar com você, mas sempre com a maior lealdade.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 17 de outubro de 2009

Só às vezes




Difícil a tal coerência, quando se trata de nosso sono, da nossa vida. Mas é preciso pensar no bem do país


A GENTE LUTA pelas conquistas sociais, pensa no bem geral, na justiça entre os homens -mas até que ponto? Até onde esses ideais não interferem em nossos interesses pessoais, claro.
 
Numa eleição você escolheu seu candidato por razões precisas: entre outras, ele prometeu lutar para que as mulheres tivessem o direito de ficar quatro meses em casa depois do parto. Agora, seja sincera e diga o que sente, no fundo do coração, quando sua empregada, que você adora e trata tão bem de suas crianças, comunica que está grávida. Fica feliz ou pensa, lá no fundo, que ela não precisava inventar esse filho logo agora? (O bebê vai nascer nos primeiros dias de dezembro, deixando você sozinha no Natal, no Ano Novo e no Carnaval, e ainda por cima nas férias).

Quando você vai a uma festa daquelas, no sábado, e domingo às 9h da manhã, bem na porta de sua casa, estaciona um caminhão de som lutando pelos direitos dos deficientes, com direito a muitos discursos e muito samba, dá para dizer o que passa pela sua cabeça ou é melhor ficar calada, para não ser tachada de nazista?

Num país com tantas desigualdades sociais, quem pode, como você, comprar ingresso para ver seu artista predileto numa casa de shows é uma pessoa privilegiada; e nada mais digno de aplausos do que o projeto cultural que prometeu instalar em alguns pontos da cidade pequenos palcos onde aos sábados, domingos e feriados cantores se apresentarão. Um desses palcos é a 50 metros de sua casa, e todo fim de semana, enquanto a galera vibra, canta e dança, você, que trabalha a semana inteira e tudo o que queria era silêncio para ler um livro em paz, e que votou nesse candidato exatamente porque ele prometeu levar alegria às ruas, amaldiçoa o evento ou fica feliz, vendo o povo contente nas ruas?

A Linha Vermelha é uma maravilha. Uma maravilha, sim, e palmas para tudo que melhora nossa cidade: palmas, bem entendido, quando você vai para o aeroporto, toda feliz, pegar seu avião para Nova York, ou rumo a Petrópolis, passar o fim de semana no sítio. Mas num belo dia de sol, você percebe que não pode ir à praia porque a Linha Vermelha -oh, surpresa- tem uma mão que vai, mas também tem uma que vem, o que significa que na areia não vai encontrar nem 50 cm de espaço para se sentar -e deitar, nem pensar; você pensa o quê? Melhor nem falar.

Aquela praia quase particular pertinho de Angra, de dificílimo acesso e pela qual você pagou uma fortuna, parecia toda sua; mas um dia aparecem cinco pessoas e armam uma barraca a 500 metros de sua casa.

Ninguém jogando futebol, fazendo churrasco, ou tomando banho de mar pelado, todos na mais perfeita paz; e você, que votou no PV achando que o mar é um bem de todos, começa a pensar seriamente em mandar subir uma cerca eletrificada para desfrutar do paraíso sozinho com seus amigos. Oh, vida.

Difícil a tal coerência, quando se trata de nosso sono, da nossa casa, dos nossos filhos, da nossa vida. Mas é preciso pensar no bem do país, no bem dos que têm muito menos do que você; será pedir muito?

Naquela manhã em que o samba impediu você de dormir, quanta gente se divertiu -e não é bom saber disso? E sua babá, que está feliz porque vai ter um filho; puxe pela memória e lembre como você ficou, quando soube que ia ter o seu.

Mesmo que você não seja uma Madre Teresa de Calcutá, deixar a bondade vencer a maldade que temos juntinhas, no mesmo coração, faz bem. Tente, pelo menos às vezes.
danuza.leao@uol.com.br

domingo, 11 de outubro de 2009

Sempre


Esse namoro, ou charme, ou flerte, não tem nada a ver com beleza, idade, posição social. É só pelo prazer

NAMORAR é preciso -com todo mundo, o tempo todo. Esse namoro de que estou falando não tem nenhuma conotação sexual -não necessariamente; é uma coisa leve, de um charme suave, que deveria existir entre todas as pessoas, em todos os momentos do dia, o que faria da vida algo de bem interessante. Namorai-vos uns aos outros deveria ser um lema: o amai-vos a gente deixa para depois, até porque é mais complicado.

Quando sentar num café e pedir uma caipirinha, no lugar de pedir com a cara amarrada, por que não começa já com um sorriso perguntando "será que vocês têm aqueles cajus maravilhosos para eu tomar a melhor caipirinha da cidade?" Se fizer isso, não tenha dúvidas de que vai receber uma resposta à altura -e também um sorriso- e a caipirinha vai ficar melhor ainda.

Uma amiga me contou que um dia, no aeroporto de Roma, pediu uma água mineral e quando perguntou quanto era, o garçom respondeu, olhando para ela bem dentro dos olhos: "Para você, 400 liras". Tudo bem, ela tinha marido, filhos, estava embarcando de volta para casa e não tinha a mais leve intenção de jogar tudo para o alto e viver um romance de amor, mas que gostou, ah, isso gostou.

A feira é um lugar onde esse charme existe o tempo todo. "Freguesinha bonita, prove um pedacinho do abacaxi, doce como mel, não existe nenhum igual ao meu." Não dá para resistir e você, que mora sozinha, compra logo seis, sem nem saber por quê.

Esse namoro, ou charme, ou flerte, não tem nada a ver com beleza, idade, posição social. É só pelo prazer, e pobres dos que são imunes a isso, não sabem o que perdem. Namora-se crianças de berço, gatos, cachorros, o macaco do jardim zoológico, e quando se começa, sempre há um retorno: faça a experiência e depois me diga.

Namorar não só ajuda a conseguir a informação de que se precisa com mais facilidade como a conversa vira um grande prazer. Reservar passagem na véspera de um feriado prolongado é praticamente impossível, mas quando você recebe um não daqueles definitivos, pergunte ao funcionário como ele se chama e diga "Paulo, meu namorado está me esperando e você, que deve ter uma namorada, sabe que avião lotado não foi feito para gente apaixonada.

Pelo menos me ponha em lista de espera e jure que vai fazer o impossível para me colocar no voo". Dizendo isso com todo o charme do mundo, já conta com uma boa probabilidade de embarcar. Na pior das hipóteses, passou uns minutos bem agradáveis e ficou cheia de esperança -e isso não é bom?

Então, vamos começar, e já. Hoje é o primeiro dia de namorar todo mundo, começando pelo porteiro e chegando até ao flanelinha -é, até ao flanelinha. Se na hora de pegar o carro, cheia de sacolas, você, desesperada, nem cogita em tirar a bolsa e procurar aquele troco que, no fundo, não tem nenhuma obrigação de dar, abra um sorriso e diga "companheiro, estou sem trocado; não fique zangado, mas vai ficar para a próxima -desculpe, sim?" Garanto que ele vai dizer um "tudo bem, madame", bem legal, e até sorrir para você. E não é melhor a vida assim?

É uma maneira de viver que deve ser exercitada e que pode trazer resultados inesperados. Como as pessoas vão gostar mais de você, de repente dá até para reformular o que foi dito lá em cima, com ar de grande verdade: "Namorar, sempre, e sem nenhuma conotação sexual". Porque com essa conotação fica melhor ainda.
Isso se chama alegria de viver.

danuza.leao@uol.com.br

domingo, 4 de outubro de 2009

A dura vida de um turista



Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram


UMA DAS COISAS mais difíceis deste mundo é ser turista. Existem pessoas que têm essa vocação; acordam cedo para aproveitar o dia e já saem do hotel com um livrinho onde está marcado tudo o que não podem deixar de ver, o restaurante onde devem almoçar e, em casos mais graves, o que devem comer. Enquanto os homens se interessam pela história e os costumes do país, as mulheres compram.

Seja lá o que for, elas compram, e se for para não comprar, preferem não viajar. Você daria a volta ao mundo, em primeiríssima classe, se não pudesse comprar nem um alfinete? Eu, não.

Quando o casal volta ao hotel -e os quartos geralmente são pequenos-, é aquele caos, e os maridos reclamam; aliás, não conheço nenhum que não diga "Essa tralha não vai caber na mala, e ainda por cima vou ter que pagar uma fortuna de excesso de bagagem por todas as bobagens que você comprou". Que mulher nunca ouviu esse texto?

O dia de um turista é duro: se é verão, chegam suados, mortos, e na Europa, a não ser em grandes hotéis, não existe ar-condicionado; e ainda vão ter que sair para jantar. Mas talvez no inverno seja pior: eles chegam exaustos, com dor na coluna por ter passado o dia com o peso do suéter, do casaco, do cachecol e das botas -fora os pacotes. Uma delícia chegar e tirar tudo, sobretudo as botas, mas daí a pouco vai ser preciso se vestir de novo, pois tem o jantar. Numa viagem clássica, visitando três ou quatro países, são umas 35 igrejas e uns 84 museus. E como dizer aos amigos que deixou de ir a algum?

Seria bom se os casais estivessem sempre de acordo, mas não é o que costuma acontecer, sobretudo em viagens. Na vida de todo dia, em casa, é tudo mais fácil. Ele chega, o jantar está pronto, as crianças ligam a televisão, se quiserem vão ao cinema, se não quiserem deixam para amanhã, e tem sempre um assunto do escritório, o último escândalo da política, uma fofoca doméstica, tem a novela, ela pode ter uma dor de cabeça, ele querer dormir cedo, e assim vai indo a vida.

Mas numa viagem, não. São só os dois, cara a cara, se enfrentando 24 horas por dia, tomando resoluções, cada um vendo o outro como ele realmente é -porque na lua-de-mel ninguém vê-, e avaliando se é feliz ou não, se ainda está valendo aquele casamento ou se já acabou.

Isso acontece em todos os momentos do dia, e quando a mulher se irrita porque o marido leva muito tempo tomando banho, e ele se exaspera porque ela não consegue se decidir pelo suéter rosa ou o marinho -e ainda pergunta a opinião dele-, é que as coisas não vão muito bem. Mas sejamos pacientes: também não vão tão mal assim, e uma viagem não é eterna.

No dia de ir embora, ela toma um tranquilizante e sai desatinada para comprar duas sacolas onde caibam as tais tralhas totalmente inúteis que comprou -e até lembra que da primeira vez em que foi à Bahia trouxe um berimbau, na mão-, e pensa que isso faz parte da viagem, de qualquer viagem.

Quando chegam, convidam os amigos para contar tudo: os lugares a que foram, as maravilhas que viram. Até aí tudo bem, só que tem a hora de mostrar as fotos; nessa hora, só alguém tendo um mal súbito.

danuza.leao@uol.com.br